Contabilidade Pessoal

Guia · 8 min de leitura

A Regra 50/30/20: Como Ela Funciona e o que Fazer Quando Não Fecha

A regra de orçamento mais citada também é a mais mal aplicada. Veja como dividir a renda direito, onde entram os gastos ambíguos e o que fazer quando os números se recusam a fechar.

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A regra 50/30/20 diz que, depois dos descontos, metade da renda cobre as necessidades, 30% cobre os desejos e 20% vai para guardar e quitar dívida. O charme dela é caber na cabeça. A fraqueza é que a maioria aplica uma vez, descobre que os próprios números não fecham e conclui que orçamento não é para ela.

Ela vale mais como diagnóstico do que como meta. A distância entre a sua divisão real e o 50/30/20 aponta exatamente qual dos três é o problema.

Os três potes, definidos direito

Quase toda a dificuldade está em classificar, então seja rigoroso.

  • Necessidades: o que quebra a sua vida se você parar de pagar. Aluguel ou financiamento, contas de casa, mercado básico, transporte para o trabalho, plano de saúde, o mínimo das dívidas, escola das crianças e remédio de uso contínuo.
  • Desejos: tudo que melhora a vida sem ser obrigatório. Comer fora, streaming, viagem, roupa além da reposição, hobbies, o mercado mais caro, a academia que dava para trocar por corrida na rua.
  • Guardar e quitar dívida: reserva de emergência, investimentos, previdência e qualquer pagamento de dívida acima do valor mínimo.

A parcela mínima de um empréstimo é necessidade. Tudo que você paga acima do mínimo pertence ao terceiro pote, porque é uma escolha que constrói o seu patrimônio.

Fazendo a conta com números reais

Pegue o que entra num mês, já líquido, e faça a média se varia. Com R$ 3.000 por mês, a regra dá R$ 1.500 para as necessidades, R$ 900 para os desejos e R$ 600 para guardar e adiantar dívida.

Agora vem a parte sincera. Liste os gastos reais do mês passado e jogue cada linha em um dos três potes. Não ajuste nada ainda. Quase ninguém cai no 50/30/20 de primeira, e é justamente a distância que traz a informação útil.

Os quatro casos ambíguos

  1. Mercado. Comida básica é necessidade; o queijo importado e a terceira garrafa de vinho são desejo. Não vale separar a nota item por item. Estime um valor semanal fixo como necessidade e trate o que passar disso como desejo.
  2. O carro. Seguro, combustível para ir trabalhar e manutenção essencial são necessidade. A troca de carro que não precisava acontecer é desejo. E um carro que daria para substituir por transporte público é, por mais incômodo que seja admitir, quase todo desejo.
  3. O celular. O plano de dados é necessidade. O aparelho de R$ 4.000 parcelado em 24 vezes é um desejo sendo pago aos poucos.
  4. Assinaturas. Quase todas são desejo, e é a categoria com mais chance de esconder algo que você não usa há seis meses.

Quando os números se recusam a fechar

Em muitas capitais o aluguel sozinho leva 40% de um salário comum, o que torna um pote de 50% para necessidades aritmeticamente impossível. Isso não quer dizer que a regra falhou com você. Quer dizer que os seus custos fixos são a trava, e nenhum corte de cafezinho resolve um buraco estrutural.

Quando as necessidades passam de 50%, só existem três alavancas, e todas são grandes: baixar o custo de moradia, baixar o custo de transporte ou aumentar a renda. O resto é arredondamento. Se nenhuma das três está disponível este ano, ajuste a meta em vez de abandoná-la — um 65/25/10 que você cumpre vale mais que um 50/30/20 que você não cumpre.

Quando o problema são os desejos

Se as necessidades estão perto dos 50% mas a poupança está perto de zero, é porque o pote dos desejos foi se esticando até absorver tudo. Esse é o caso mais comum e o mais fácil de resolver. Não corte tudo. Encontre a maior linha isolada — para a maioria das pessoas é comer fora e delivery — e coloque um limite só nela.

Cortar uma categoria pela metade é factível e gruda. Cortar oito categorias em um quinto exige oito decisões por semana e desmorona em um mês.

Como fazer isso sobreviver ao segundo mês

  1. Automatize os 20% primeiro. Separe no dia do pagamento, antes de o dinheiro ficar disponível para gastar.
  2. Coloque limite no maior desejo, e deixe os outros em paz.
  3. Revise uma vez por mês, não todo dia. Conferir diariamente gera ansiedade, não decisão.
  4. Conte com um mês fora do padrão a cada trimestre, e não trate isso como fracasso.

A regra não é um padrão moral. É um jeito de transformar a sensação vaga de que o dinheiro está sumindo em um número específico, no qual dá para agir. Quando você souber qual dos três potes está fora de forma, saberá qual deve ser a única mudança do mês que vem.

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